É, antes de mais, um tributo à re/conhecida megalomania do produtor: David O’ Selznick.
Pessoalmente, devo dizer que nunca o achei mais do que simplesmente um filme grande, muito distante do grande filme que alguns vêem nele.
Há [houve], claro, depois de uma busca incessante que o mito pretende tenha passado pela suposta mas historicamente inexistente recusa de Bette Davis em protagonizá-lo, Vivian Leigh na ambígua e contraditória figura de Scarlett O’Hara; há os sóbrios e discretíssimos, mas muito eficazes, talentos de Olivia de Havilland e de Leslie Howard e “last but not least” a presença imponente e a abarrotar de testosterona de Clark Gable. E há, como todos sabemos, um script passado de mão de realizador em mão de realizador que acabaria por resultar numa coisa particularmente difícil de entender fora do contexto de um não-catolicismo para o qual a “salvação” não depende, como é sabido, causalmente das acções concretas de cada um ficando, sim, exclusivamente dependente da “graça”. Circunstância esta que, uma vez tida presente, permite, em tese, a meu ver, ao espectador do filme aproximar-se talvez decisivamente da compreensão da persona de outro modo, em termos existenciais e particularmente éticos dificilmente qualificável de Scarlett, que começa, com efeito, por nos ser apresentada tão-somente como uma mera “Southern belle” leviana, egoísta, inescrupulosa, cobarde, infiel, e mesmo, a dado passo, um pouco alcoólica, ela que noutros momentos parece, pelo contrário, constituir um modelo de coragem e tenacidade no meio da inenarrável tragédia da devastadora Guerra Civil norte-americana.
Isolados, porém, os actos da heroína da respectiva aparentemente desejada “salvação”, Scarlett excepcionalmente bem defendida, aliás, é preciso dizê-lo muito claramente, por uma luminosa Vivian Leigh, surge, então, como o paradigma da mulher corajosa e tenaz, isto é, da vítima de um destino trágico não merecendo o desprezo final de Butler/Gable na famigerada sequência que o mostra abandonando-a definitivamente com o já clássico “Frankly, my dear, I don’t give a damn!” [que a censura tentou que tivesse muito mais decorosa mas muito mais chochamente sido “Frankly, my dear, I couldn’t care less”].
No todo, o filme, recentemente divulgado em versão DVD com um conjunto de publicações portuguesas que vão da “Visão” ao “Expresso”, constitui hoje-por-hoje, um monumento a um certo estrelato de época [de que Gable foi, como se sabe, um dos expoentes máximos, com “ecos” por todo o mundo de Itália (Amadeo Nazzari, v.g.) ao México (Arturo de Córdoba) passando por Portugal (António Vilar) assim como, de um modo mais lato, a um certo gosto pelo vulgar prodigamente decorado por um certo tom de época (Cf. “Cleópatra” a de Mille como a do incomparavelmente mais relevante Joseph. L. Mankiewicz, que começou, como se sabe, por ser de Rouben Mamoulian, que, a dado momento, abandonou o projecto ou foi por ele deixado cair...]

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