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quarta-feira, 27 de agosto de 2014
terça-feira, 13 de maio de 2014
Night Train", filme de Brian King
Night Train”:
Comecemos por uma constatação prévia, de natureza histórico-cinematográfica: a saber aquela que observa e regista o facto de que, desde a morte de Alfred Hitchcock ocorrida, como se sabe, em 1980 que a procura de supostos “herdeiros” legítimos para a opus verdadeiramente magnífica que o «enorme» Cineasta inglês legou à Arte cinematográfica se converteu, para todos os efeitos práticos (e mesmo, em alguns casos, teóricos) num exercício senão mesmo (em alguns momentos e circunstâncias), num autêntico ‘ritual’ estético e intelectual de eleição para os cinéfilos de todo o mundo.
Para muita da crítica norte-americana, por exemplo, o nome mais vezes citado (pelo menos até um dado momento e com base quase exclusivamente num único filme —o célebre “Dressed to Kill”— filme esse, aliás, particularmente mal escolhido para o efeito, é preciso referir e deixar devidamente sublinhado!); para muita da crítica norte-americana ia dizendo, o candidato maior a «epígono electivo» do Mestre, dito de outro modo: o nome mais vezes apurado para constituir o eleito dessa espécie de cerimonial iniciático de um, de resto, fascinante e potencialmente fecundíssimo culto intelectual e estético hitchcockiano, iniciado em França e nos incontornáveis “Cahiers” foi, a meu ver (muito mal, volto a dizer!) o de Brian De Palma, escolhido (vá-se lá saber por quê!), como dizia, para sucessor e herdeiro “natural” ou mesmo «legatário cinematográfico», (ele que—paradoxo máximo!—se celebrizou, de resto, ao longo de uma acidentada carreira de constantes altos-e-baixos na muito anti-hitchcockiana ‘cena’ “gore”, com o famosíssimo “Carrie” de 1976) daquele que foi, a meu ver, o mestre, não do suspense, como muito pouco imaginativa e, de resto, também muito redutoramente pretende o consabido ‘cliché’ simplificador, em larga medida, desacreditado e consequente caído em desuso, aliás, no âmbito da exegese hitchcockiana séria, desde a abordagem/tributo hermenêutica que lhe foi dedicada por admiradores autenticamente de luxo como Truffaut, Chabrol ou Rohmer, que no realizador de “Vertigo” souberam com a particular inteligência crítica e cinematográfica que os define, não um simples “mestre do suspense” mas, muito mais justa e muito mais apropriadamente o cineasta genial, o mestre, se quisermos, mas do ’understatement‘ narrativo tão engenhosa quanto brilhantemente usado, no discurso como estímulo dirigido à inteligência [re] criadora do espectador de Cinema.
Ora, sucede que a comparação, sublinho, está longe de fazer justiça a um Hitch que foi, sobretudo, como muito lucidamente perceberam os realizadores atrás citados, o genial praticante do inuendo, da indução ou, se assim preferirmos dizer, recorrendo a um “palavrão” idealmente expressivo, recordando, desde logo (e, por exemplo possivelmente mais tópico e clássico) a famosa sequência das facadas no chuveiro aplicadas em Janet Leigh/Marion Crane de “Psycho”: exímio utilizador da «elipse sugestional» narrativa, ele que foi consabidamente (existem, aliás, múltiplos testemunhos disso) um cineasta para quem a montagem da obra antecedia, em larga medida, a respectiva filmagem, sendo grande parte dela, montagem, realizada no próprio acto de idear ou conceber, não sei se será legítimo dizer assim: em abstracto) esta última.
Ainda em vida de Hitchcock, diversos autores foram, de resto, de uma forma ou de outra, prestando tributo ao estilo e aos maneirismos idiossincráticos do Mestre, constituindo, por exemplo, obras como “Witness to a Murder” de Roy Rowland (uma espécie de competente apostila ou variação em belíssimo preto-e-branco em torno do tema do clássico “Rear Window”); “Charade” de Stanley Donen, ou ainda “The Prize” de Mark Robson (um “Torn Curtain” mais rebuscado e desigual) ecos mais ou menos bem sucedidos da soberba «melodia narrativa» constituída pela Obra imortal do Mestre.
Se, todavia, procurássemos no presente um filme onde o registo hitchcockiano temporal e até tecnicamente “updated” se encontrasse presente ou, para sermos mais cautelosos, a seu modo, possivelmente [re] vivo e, em geral, latente encontrá-lo-íamos, seguramente, neste curioso e enigmático, meio ‘fantástico’ “Night Train” com «McGuffin» e tudo (aqui constituído pela misteriosa caixa que só não é de Pandora porque o mal que contém e que tudo e todos fatalmente contamina e infecta só vem a ser libertado no fim, sob a forma de uma luz intensa que cega quem a contempla (possível simbologia envolvendo Lúcifer <Lux+fero ou o, portador da Luz, numa palavra, o Mal, algo que é, em tese remota e talvez muito livremente admissível associar ao mitário bíblico do pecado original envolvendo a ambição prometaica de Adão e Eva, expressamente vedada, como é conhecido, pelo «Criador») .
Um outro aspecto muito interessante do filme de Brian King é que ele cruza de um modo extremamente curioso um certo e já parcialmente muito referido temário hitchcockiano com uma outra linha de pensamento e uma outra visão, originária essa da não menos estimulante e relevante obra saída da pena de um dos mais enigmáticos personagens literários de que há memória: Bill Traven, o, ao que parece, nunca integralmente identificado autor de “The Treasure of the Sierra Madre”, um possível alter-ego do anarquista Ret Marut, um alemão fugido do país natal por razões políticas e que é também com frequência identificado com um tal Berick Traven Torsvan.
A versão cinematográfica de “The Treasure…”, muitas vezes vista como um mero filme “de aventuras”, é, antes de mais e em vez disso, muito mais profundamente, uma steinbeckiana (cf. “Of Mice and Men”) ou von stroheimiana (vide o seu esplendoroso, monumental e tão maltratado “Greed”) reflexão sobre a cupidez e a rapacidade dos indivíduos ( “Greed” de von Stroheim correu, de resto, como é sabido, entre nós com o título expressivo e adequado de “Os Rapaces”) , assim como sobre a natureza intrinsecamente corrupta (e estrutural senão mesmo fatalmente…) corruptora ínsita à condição humana (outro eco bíblico possível envolvendo a polarização ontológica sempre omnipresente na visão crística da condição humana, estabelecida entre espírito e matéria com o reconhecimento implícito senão mesmo explícito e confesso da superioridade estrutural da primeira dessas entidades em que supostamente se divide—de facto se auto-aliena—o individuo, sobre a segunda).
Filme de terror claustrofóbico e opressivo (muito à Hitchcock, o Hitch de “The Lady Vanishes”, por exemplo), “Night Train” mostra como mesmo uma jovem de rosto angélico (a “demure” Leelee Sobieski das sequências iniciais, discreta e estudantil) se transforma bruscamente por acção da cobiça numa carniceira sanguinária e implacável doublée de voluptuosa sedutora capaz de profanar um cadáver humano mutilando-o impiedosamente com recurso a um cutelo de cozinha com o único propósito de fazê-lo caber numa mala a fim de ocultá-lo das autoridades e apoderar-se do que julga serem diamantes de enorme valor. Também ela, uma muito greta garbianamente impassível e sóbria, recatada, Leelee Sobieski, “Chloe” no filmea nos surge, a dado passo como Lúcifer, na persona do “anjo caído” metamorfoseando-se, como disse, numa imprevista sedutora e recorrendo à sedução a fim de induzir a cumplicidade de um dos cúmplices ao qual começam a dado passo a levantar-se profundas reservas morais que parecem fazê-lo hesitar no cumprimento do plano de se apossarem das supostas “pedras preciosas” ocultas na misteriosa caixa que nunca chegamos, de resto, a saber exactamente o que é.
O terror acentua-se, aliás, profundamente no filme através desta linha que parece, de resto, aproximá-lo da tragédia grega por intermédio desse tópico motivo da fatalidade impendente e literalmente irresistível (a Anankê dos gregos?) do Mal aspecto esse potenciado pelo recurso opressivo ao confinamento das personagens ao espaço material e psicológico do comboio, tal como em Fritz Lang (“Human Desire”) ou também do já amplamente citado Hitchcock (“The Lady Vanishes” ou, de algum modo, o genial “North By Northwest”) a representação, a um tempo simbólica e material, da desfixação e/ou da descentralidade e infixidez (da volubilidade ôntica) [des] estrutural, física e moral, da realidade no labirinto da qual o indivíduo erra às cegas sempre frágil e indefeso à mercê de forças que o ultrapassam, entre as quais avulta a sua própria auto-destruidora ambição e desmedida avidez (herdeira moderna da “hybris) trágica grega.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
sábado, 27 de julho de 2013
sábado, 20 de julho de 2013
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